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Tag: Deep Purple

Smoke On The Water - Maria Moita de Montreux à banda dos sonhos

A história conta que Roger Glover, baixista do Deep Purple, teria acordado de um sonho e anotado a singela frase: "Smoke On The Water" (fumaça na água). Depois de a banda ter presenciado o incêndio do Montreux Casino, no dia 4 de Dezembro de 1971, a história seria eternizada num hino do rock que jamais será esquecido.

Incêndio do Montreux Casino, 1971

Letra histórica

Em uma letra simples e direta, usando 3 estrofes e um refrão, a banda relatou a história real do ocorrido naquele dia e nos bastidores das gravações:

We all came out to Montreaux
On the Lake Geneva shoreline
To make records with a mobile
We didn't have much time
Frank Zappa and the Mothers
Were at the best place around
But some stupid with a flare gun
Burned the place to the ground

Às margens do lago Geneva, na cidade de Montreux, Suiça, o quinteto britânico se preparava para a gravação do disco Machine Head com um "mobile", como é referenciado o estúdio de gravação móvel dos Rolling Stones. Enquanto isso, um show de Frank Zappa e The Mothers of Invention acontecia no teatro do cassino, local onde o Purple faria as gravações mais tarde, quando, de repente, o local se encontrava em chamas. O idiota não identificado da letra teria causado o incêndio com um sinalizador ao mesmo tempo que dava inspiração para uma nova composição...

They burned down the gambling house
It died with an awful sound
Funky & Claude was running in and out
Pulling kids out the ground
When it all was over
We had to find another place
But Swiss time was running out
It seemed that we would lose the race

O cassino queimou completamente fazendo Zappa perder todo o seu equipamento. Claude Nobs, o fundador do renomeado Montreux Jazz Festival, foi referenciado como o Funky Claude que estava ajudando a salvar algumas crianças do incêndio. No fim das contas, sem o cassino a disposição, a banda teve de encontrar um novo local para poder gravar.

We ended up at the Grand Hotel
It was empty, cold and bare
But with the Rolling truck Stones thing just outside
Making our music there
With a few red lights and a few old beds
We made a place to sweat
No matter what we get out of this
I know we'll never forget

Com a ajuda de Claude Nobs, a banda se alojou no frio e vazio Grand Hotel para realizar as gravações. Terminando a história sobre a gravação de seu mais bem-sucedido álbum, uma das mais certeiras previsões da história da música era lançada: "Eu sei que jamais esqueceremos". Nem eles imaginavam o quanto...

Smoke on the water
Fire in the sky
Smoke on the water

O refrão contrasta lindamente o "fogo no céu" com a "fumaça na água" das visões de Glover. Simples, direto e muito bem empregado.

Riff: o coração da música

Nada seria de Smoke On The Water sem o seu fabuloso riff. Mais viciante que Cocaine, mais heróico que Iron Man, a seqüencia de 4 notas de Ritchie Blackmore cravou (ainda mais) o nome do Deep Purple na história da música.

Blackmore afirmou em entrevista à CNN que se inspirou na quinta sinfonia de Beethoven para compor o famoso riff. Porém, há a hipótese de que "o original" seja brasileiro!

Em terras tupiniquins, Carlos Lyra e Vinicius de Moraes compuseram Maria Moita no ano de 1962, música lançada em 1964 no disco Pobre Menina Rica. Tom Jobim foi quem sugeriu os "acordes mágicos" de Maria Moita a Lyra, segundo uma matéria (excelente) do Marca Diabo. Com um ritmo brasileiro e algumas notas a mais, mesmo não caracterizando plágio, a bossa nova pôde ter sido a fonte utilizada por Blackmore.

Uma hipótese bastante comentada é a de que o guitarrista inglês teria escutado Maria Moita em Montreux, já que Claude Nobs é um grande apreciador e colecionador de música brasileira. A envolvente idéia de Tom Jobim teria ficado no subconsciente de Blackmore, de onde mais tarde nasceria para o mundo como um clássico do rock.


Nesta versão technobossa de Rosalia De Souza que os DJs europeus teriam percebido a semelhança de Maria Moita com o popular riff

De tão popular e simples, dizem que é proibido tocar o riff mágico em lojas de instrumentos musicais de todo o mundo. Eu nunca comprovei tal história. Talvez isso ocorra porque seja realmente irritante ouví-la centenas de vezes ou a fim de evitar "amadores" (lembrem-se de proibir Legião Urbana no Brasil).

No ano passado, Smoke On The Water foi escolhida por estudantes de música londrinos como a composição com o melhor riff de guitarra de todos os tempos.

Conjunto da Obra

Contando com o brilhante riff, Smoke On The Water segue a fórmula da simplicidade por toda a estrutura da música. Sem exageros, demonstra o valor do princípio KISS (não se trata de maquiados suspeitos) aplicado na música.

A introdução é o momento mais cativante do clássico. Tudo começa com o riff tocado por Ritchie Blackmore, então as batidas no chimbal inserem a bateria de Ian Paice e, por fim, Roger Glover entra com a sua modesta linha de baixo, na medida certa para a música.

Ian Gillan canta a história com a competência que lhe é peculiar. Já Jon Lord colabora "incendiando" a performance nas teclas. No meio há o solo de Blackmore e, no final, o solo de Lord. Todos dentro do princípio da composição.

Curiosamente, Smoke On The Water foi a única música do Machine Head que Blackmore não tocou com sua Fender Strato. No lugar, ele utilizou uma Gibson ES-335.

Um clássico de 4 décadas

Gillan contou no Montreux Jazz Festival de 1996 (registrado no DVD Live At Montreux 1996) que nas gravações do Machine Head havia sobrado uma faixa, aquele "tã-tã-tann...", então Glover sugeriu que gravassem aquela frase de seus sonhos. Dali a banda estabeleceu uma eterna relação com Montreux.

A música era desacreditada pela própria banda. Foi colocada para abrir o lado B do disco, não era constante nos shows da banda e foi o segundo single do álbum. Contudo, mais um clássico havia nascido e estourava no mundo em 1973.

Incontáveis performances da música aconteceram desde 1972, tanto pela própria banda em suas diversas formações e épocas, quanto em covers (algumas vezes intragáveis) de artistas conhecidos ou não. Uma em especial chama a atenção pela formação da banda, a qual deve conter a line-up dos sonhos de muita gente (exceto por um certo canadense): Geoff Beauchamp, Ritchie Blackmore, Bruce Dickinson, Geoff Downes, Keith Emerson, Ian Gillan, David Gilmour, Tony Iommi, Alex Lifeson, Brian May, Paul Rodgers, Chris Squire, Roger Taylor e Bryan Adams (?!), além de John Paul Jones e Jon Lord creditados por colaboração, todos gravando Smoke On The Water '90 para o Rock Aid Armenia, esforço humanitário com o objetivo de ajudar as vítimas do terremoto de Spitak.

Deep Purple em Porto Alegre, 03/03/2009

Foi na última terça-feira, dia 3 de Março de 2009, uma data para ficar marcada em minha memória. Estava ansioso para assistir pela primeira vez a um show daquela que eu considero a melhor banda do rock'n'roll: o bom e velho Deep Purple.

Fui a Porto Alegre apenas com o objetivo de ver a banda em mente. Cheguei ao teatro do Bourbon Country e fui à pista do local com o ingresso adquirido por um valor bem salgado. Minutos antes da banda de abertura Rosa Tattooada entrar, fiquei lá na grade do lado esquerdo do palco, sem dificuldade.

A banda Rosa Tattooada não é do tipo que me agrada, pois em geral considero a cena metal farofa "vazia". Convenhamos, a banda gaúcha seria a escolha mais coerente se a turnê fosse do Slaves & Masters. Contudo, eles têm experiência e demonstraram uma performance competente no palco.

Troca de palco para a entrada da aguardada banda inglesa. O teatro já parecia mais cheio, com pessoas que chegaram durante ou após (talvez evitando) a apresentação da banda gaúcha. Olhando para todos os setores da casa, pareciam bem ocupados, exceto pela pista que tinha uma folga considerável. Os preços dos ingressos e o fato de terem sido marcados 2 shows deve ter prejudicado a chance de um público maior.

21 horas e o Deep Purple abria o show daquela noite com a clássica faixa de abertura do também clássico disco Machine Head: a potente Highway Star. Parecia potente até demais para a atual condição vocal de Gillan, porém foi levada pela garra do velho e pela empolgação do público.

Fiquei de frente a Roger Glover durante grande parte do show. O carisma do homem é impressionante. Com uma presença de palco excelente e demonstrando muito bom humor, o baixista parecia olhar diretamente na cara de cada um dos presentes na pista com uma alegria contagiante, empolgando e cantando junto todas as músicas. Como de costume, Glover teve uma atuação excelente nas 4 cordas.

Do outro lado, Steve Morse conduziu o show de forma espetacular com seu virtuosismo muito bem aproveitado em momentos oportunos aliado a sua grande simpatia. Solos de bom gosto, momentos de inspiração, bela introdução para Sometimes I Feel Like Screaming, etc. Morse deixou sua marca.

Ian Paice, o genial baterista que esteve presente em toda a história da banda, atuou com muita competência, com sua pegada característica e direito a solo. É uma pena que não pude ver uma Fireball.

O tempo passa e a voz de Gillan já passou por várias fases desde os anos 70, época que o deixou consagrado como uma das melhores vozes do rock. Claro que conhecendo a situação do vocalista nos últimos anos não se pode exigir gritos, agudos inatingíveis e Child In Time do homem. O descalço Ian Gillan continua cantando com raça, alegria e no tom original das músicas, mais favorecido em músicas que exploram melhor graves e médios, mas ainda encarando uma Highway Star.

O maestro Don Airey manteve o profissionalismo nas teclas e tocou o seu tradicional solo mesclando passagem de várias músicas em certo ponto do show.

O repertório passou por músicas de várias épocas além dos solos dos integrantes. Into The Fire do disco In Rock, o single Strange Kind Of Woman de 71, Highway Star, Space Truckin e a obra-prima Lazy, as três do Machine Head. A bela Perfect Strangers dos anos 80 e The Battle Rages On, faixa título do esquecido disco de 93, o último da formação clássica. O início da era Morse foi apresentado com Ted the Mechanic e Sometimes I Feel Like Screaming. Tocaram a bela Rapture Of  The Deep e Things I Never Said do último disco. Também apareceram os instrumentais The Well-Dressed Guitar e Contact Lost. Fecharam com o hino Smoke On The Water para delírio dos presentes no teatro. Os encores foram bem previsíveis: Hush, o primeiro sucesso da banda nos anos 60, e Black Night, contando com o explosivo coro do público.

Para uma banda com uma discografia extensa, agradar a gregos e troianos na escolha das músicas é praticamente impossível. Numa região de conforto, tocam 4 das 7 músicas do Machine Head e as "obrigatórias" como Smoke On The Water e Black Night. Sem grandes surpresas de um show para outro, porém as pequenas, como ter incluído Lazy no dia 3, já agradam muito. O setlist foi ótimo para a banda de mais de 40 anos conduzir o show por cerca de 1 hora e 45 minutos com boas músicas de diversas décadas e fases, ainda mais sendo aquela a primeira vez que os vi.

Não tirei fotos nem gravei vídeos, tampouco pensei em levar câmera, mas há registros do show no YouTube, no last.fm e em algum outro canto da web.

A turnê 2009 pelo Brasil termina hoje a noite com um show em São Paulo. Os shows já feitos no país durante a semana foram: Porto Alegre nos dias 2 e 3, Florianópolis no dia 5 e o primeiro de São Paulo na noite de ontem.

Viva o Deep Purple! Viva o bom e velho rock'n'roll!